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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A casa da rua Santana 384


Doze de agosto de mil novecentos e  trinta e oito, uma terça feira ensolarada o outono em pleno auge dava a tonalidade marrom das folhas mortas ao ambiente.
Geralsina, uma mulher negra com um metro e setenta de altura, dentes alvos e perfeito corpo de mulher feito para a lida diária da roça, dava neste momento aos seus filhos o farto alimento que colhera de seu quintal: arroz, feijão mostarda, angu e torresmo de carne de porco.
No seu casebre sonhava em aumentar mais um cômodo, pois prenunciava a vinda de mais filhos e queria que esse filho que teria viesse na paz do senhor e com muito espaço para peraltear.
 A rua em que a família morava, era rústica, cheia de buraco e carecia de cuidados, afinal o brasileiro estava mais preocupado coma guerra eminente em que o presidente Vargas estava empenhado em participar se aliando com os estadunidenses e ingleses contra os branquelos alemães. Todo esforço da economia nacional estava direcionada para esse objetivo.
- Graça ao bom Deus, ninguém da família fora convocado para lutar, La no outro lado do mundo. Isto tranquilizava Geralsina. Seu marido José Hilário estava no seu segundo casamento e ela além de cuidar de seus filhos em numero de três , cuidava com desvelo dos quatros outros filhos, fruto do primeiro casamento de seu marido.
Para uma família cujo chefe teve a sorte de arrumar um emprego na RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima) era sinal de estabilidade financeira e assim foram se passando o tempo, seu marido atendera seu pedido aumentando a casa que ficou do agrado.
O bebe se aproximava do dia de seu nascimento e Geralsina já tomava o chá de ervas para quando chegasse a hora, não houvesse dificuldade para o seu nascer.
Acabara de preparar o jantar e sob a luz tenra da lamparina viu seu marido chegar do serviço com o semblante cansado e extenuado como sempre, mas nessa sexta feira tinha algo novo em seu olhar, seus dentes alvos brilhavam emoldurando um sorriso de satisfação.
Jose muito cansado, ainda arrumou forças para dar um abraço em sua esposa e confidenciar ao teu ouvido a boa nova: - “Cina !” Recebi uma promoção, agora não serei braçal. virei guarda chave e vou trabalhar arrumadinho dentro da estação de trem!
- Que bom! jubilou “Cina” acabou essas viagens doidas de conserto de linhas, você vai trabalhar onde?- Indagou sua companheira.
- Irei trabalhar aqui em General Carneiro. Perto daqui, vou trabalhar a noite e o salário vai ser maior. Teremos que mudar para La para quando o patrão precisar de mim, eu vou estar sempre pronto a atender.
-Mas e aqui? Depois que reformamos a casa vou deixa-la? Nunca! Bradou irritada senhora.
- È por pouco tempo é só até eu pegar experiência no cargo e ficar próximo de olhar você e nossos filhos. Iremos só nós dois e  nossos filhos essa  casa fica com o Rubinho, Carmelita, Enedina e Valdemar assim olho as duas famílias e descanso mais.
Inconformada Geralcina não queria aceitar e seu marido estava irredutível. Já comprara a casa em General carneiro e a mudança seria na quinta feira da semana seguinte.
 O amor que Geralsina tinha pela sua casa, era algo indescritível, seu jardim, sua plantação de hortaliça, suas galinhas, cabras e mimosa, sua vaquinha que lhe dava o sagrado leite toda as manhã, iriam ficar para trás. Seus enteados não saberiam como preservar toda a sua riqueza.
Ficara sem conversar com seu marido e dialogando com o padre José aceitou ainda relutante, mudar para o local de trabalho de seu esposo.
Na quarta feira que antecedeu o dia de sua mudança, Geralcina, chorou e implorou que seu marido a deixasse morar naquela casa, pois toda a sua historia estava impregnada nas paredes e que ela não se adaptaria ao novo endereço. Não houve jeito e na quinta feira no trem das oito horas da manhã ela partia com seus três filhos nas mãos e um na barriga para o seu novo lar.
A mudança chegaria no cargueiro do meio dia e haveria amigos de Jose Hilário para ajudar a montar seu novo lar.
O abatimento caiu como uma rocha de uma tonelada na alma de Geralsina. Vivia calada e sempre com lagrimas nos olhos com saudade da Roça grande e de seu antigo lar. Jurava que voltaria para a terra de santo Antonio e viveria ali seus últimos dias.
O tempo passava rápido, ela com pensamentos ocupado, havia se esquecido que estava grávida e na noite de vinte e oito de fevereiro de mil novecentos e trinta e nove a parteira Diolinda foi requisitada a socorrer a mulher de Jose Hilário, mas ela nada pode fazer, a parturiente teve grave hemorragia e faleceu juntamente com seu filho.
Foi uma enorme comoção em Roça grande e atendendo ao seu desejo seu corpo e do seu filho foi enterrados no cemitério ao lado da capela de santo Antônio.
A casa da Roça grande ficou com os filhos de Jose hilário do primeiro casamento, cada um foi tomando o caminho que a vida os destinara. Rubens entrou para a companhia Belgo mineira e juntamente com Valdemar, mudaram para Sabará e La constituíram família, Enedina e Carmelita casaram teve filhos e Jose hilário deu a cada uma, pedaço da gleba da rua Santana onde as duas viveram com seus filhos ate morrerem.
Em 16 de julho de 1966, partia desse mundo o Zé Hilário e sua casa agora vazia serviu de moradia para vários casais com seus filhos.
Muitos inquilinos relataram que constantemente viram uma mulher sentada na soleira da porta da cozinha, mas quando se aproximava ela desaparecia.

Todos moradores desta casa por um motivo ou outro tiveram conflitos de relacionamento familiar e hoje é uma casa abandonada onde o tempo está encarregado de destruí-la.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A morte de Alexandre



Foi numa tarde de verão que aquele menino lindo veio ao mundo.
Fazia um calor insuportável naquele oito de janeiro e dona Matilde jazia deitada num rústico catre mal cheiroso e frágil, que serviu para dar a luz o seu rebento.
Era seu segundo filho, segundo filho sem pai, pois ao saber que Matilde estava grávida, Tiãozinho, seu namorado, picou a mula para São Paulo, desaparecendo de vez do distrito de Roça grande.  Mas não era o momento de se lamentar, teria que se apegar a Nossa Senhora do “Bom Parto” para que ela a protegesse das possíveis infecções “pós-parto”, pois energia para lutar pela sobrevivência e cuidar dos filhos, ela tinha de sobra. - Sou guerreira! Refletiu.
O tempo foi célere na vida de Matilde, recuperou se do parto, logo voltou a trabalhar na prefeitura de Sabará, graça a boa amizade que tinha com o então prefeito “Marcelo Dias” a quem segundo suas palavras, era o pai dos pobres da cidade e com ele conseguiu um pedacinho de terra onde construiu sua casinha onde viveria por muitos anos.
Enquanto o tempo descia pela “ampulheta da vida” Rosaria e Alexandre cresciam e se tornavam duas belas crianças inteligentes e comunicativas, logo Rosaria demonstrou aptidão para ser freira e incentivada pelas irmãs da ordem de “São Canisio” ingressou num convento para estudar e dar prosseguimento a sua vida contemplativa.
Alexandre ao contrario, adorava uma rua, tocava bem violão, aos cartozes anos já namorava e jogava futebol no time do “seu Armando” onde era considerado “menino prodígio” pela sua impetuosidade e ousadia neste esporte bretão.
A vida de Matilde se estabilizou, estava satisfeita com os seus dois filhos, com sua casinha, encontrara até que enfim um homem correto e trabalhador que a ajudava a viver na pequena comunidade de Santo Antonio da Roça grande.
Alexandre cada dia mais se destacava como um bom rapaz, estudioso, trabalhador e prestativo. Cedo começou a trabalhar na vendinha do “seu” Geraldo Rocha e logo, logo ganhou a confiança do seu patrão que podia sair para a capital das “Gerais” e deixar tudo por conta do seu agregado.
O olhar, o sorriso e a fala mansa e viril de Alexandre conquistava quem se aproximava dele, a vendinha do seu Rocha prosperava, devido à competência de seu empregado que transpirava confiança e conhecimento na arte de vender.
Numa terça feira fria de junho, Matilde entra no quarto de seu dileto filho e o encontra chorando, assustada ela o interroga por que essa atitude. Seu filho não responde e soluça.
Desde esse dia o sempre alegre e jovial Alexandre se trancou num terrível silencio toda a sua alegria se fora, ninguém entendia o porquê dessa drástica mudança de comportamento, emagrecera, seus olhos antes cheio de vida, se transformara em duas pedras opacas frias.
Tentava sorrir mas o que antes parecia vida , agora era um horrível esgar de ranger de dentes, numa moldura pálida.
O tempo foi passando e a cama foi o lugar que o acolheu , médicos de Sabará e Belo Horizonte  foram consultados em uma desesperada corrida pela vida do “Xandinho” , não tinha mais namorada, perdera o emprego, o quarto , ora iluminado pela vida , agora guardava tétricas premonições.
Rosaria sua irmã querida pedira licença no convento e veio lhe fazer vigília pelo bem de sua saúde e foi nessa vigília que o mistério desvendou se;
Dormindo ao lado da cama de seu dileto irmão , eis que uma luz irrompe o quarto .
Não era uma luz comum , ela pulsava e emitia um calor aconchegante que contrastava com o frio que instalara la fora.
Alexandre como por um milagre se levantou e caminhou para a luz. Atônita Rosaria viu e ouviu o diálogo entre seu irmão e a luz que depois de alguns minutos saiu do mesmo jeito que entrou, desaparecendo na noite .
Parecia que a “luz” havia revigorado seu irmão. Rosaria por fim indagou ao seu irmão o que estava acontecendo; Alexandre num sorriso frágil confidenciou a sua dileta irmã:
- Estou partindo , querida irmã, meus dias nesta terra estão se exaurindo e terei que deixa-los.
Quem você viu sair desse quarto nada mais é que o Nosso senhor Jesus Cristo que veio me avisar que essa é a ultima noite que passo neste planeta.
No inicio fiquei desesperado quando da primeira visita, mas com o tempo fui familiarizando com o meu destino e a presença de Jesus todas as noite aqui comigo me deu a certeza que parto para um mundo bem melhor que este e de onde poderei proteger as pessoas que amo.
- Não conte a ninguém essa nossa conversa espere passar quarenta anos e aí sim poderá contar a seus amigos e as pessoas o porquê da minha partida.

Dita essa palavras ele se voltou para o lado da cama e adormeceu... adormeceu para nunca mais acordar.

sábado, 12 de novembro de 2016

A desconstrução da pessoa preta


Henrique Frederico*, Estado de Minas, 11 novembro 2016
Nos últimos tempos, tem-se destacado nas redes sociais um vídeo em que um imigrante africano radicado há cerca de 30 anos no Brasil estranha o fato de que, em nosso país, os pretos sejam chamados de negros. Esse sábio imigrante destaca, ainda, que várias metáforas que utilizam a palavra negro (a) têm conotações negativas, como, por exemplo, ovelha negra, lado negro, peste negra, humor negro, magia negra, entre outras expressões. Por isso, em seu entendimento, assim como desse que vos escreve, a palavra mais indicada ao ser referir aos afrodescendentes é preto, e não negro.
O mais recente senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que, aproximadamente, 54% da população brasileira se autodeclara preta ou parda, e nos aproximamos de comemorar mais um Dia da Consciência Negra (20 de novembro), mas podemos notar que ainda temos muito a evoluir. Desde cedo, somos obrigados a crer que o ser preto é o que há de pior na sociedade. A principal lembrança que tenho da minha infância é a vontade quase sufocante de afastar de mim qualquer coisa ou traço que me identificasse como preto. Sentia que, com essa atitude, seria mais aceito pelos outros e, principalmente, por mim. Mas isso não era minha exclusividade. Podia perceber, claramente, que outras crianças tinham esse sentimento.
Seguindo esse exemplo, podemos notar, também, como é recorrente a tentativa de desconstruir ícones pretos para defender ou ratificar teorias de que não há racismo em nossa sociedade. Uma das questões mais levantadas é sobre Zumbi dos Palmares e seus escravos, no Quilombo dos Palmares. Por isso, a luta pela liberdade de Zumbi – mesmo que seja a dele e de seu povoado – é deixada de lado. Dessa forma, convenientemente é esquecida a forma como os pretos que buscavam a liberdade eram caçados, castigados e muitas vezes mortos.
A escravidão sempre esteve presente na história da humanidade – até nos dias de hoje –, mas apesar de ser cruel em todas as formas e períodos, nada se compara ao que foi feito contra o preto africano trazido à América. Desde a sua captura à travessia subumana do Atlântico, quando se estima que mais de 150 milhões de pretos foram mortos, até a desconstrução de sua identidade, cultura e costumes, além dos mais pesados tipos de castigos.
Malcolm X, um dos grandes defensores dos direitos civis no século passado, destacava que a luta da pessoa preta é ser reconhecido como ser humano. E essa luta continua. Infelizmente – por mais estranho que possa soar –, muitas pessoas ainda julgam que os pretos são inferiores e pouco superiores aos animais. Contudo, ao mesmo tempo, essas são as primeiras pessoas a debater com ímpeto sobre-humano contra as cotas raciais e políticas de inclusão, que são fundamentais para a integração. Vale destacar que, no Brasil, o índice de miséria entre os pretos chega à média de 22%, valor duas vezes maior que entre os brancos (10%), conforme um estudo realizado pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) e divulgada recentemente.
E a melhor maneira de tratarmos esse assunto é aceitar que esse problema existe.

*Henrique Frederico é Jornalista.

sábado, 22 de outubro de 2016

10 CURIOSIDADES SOBRE O QUILOMBO DOS PALMARES






1. O governo português considerava "quilombo" qualquer agrupamento de "mais de 6 escravos escapados ao senhor, vivendo juntos e ao revés da lei". Os moradores do quilombo eram chamados quilombolas. A palavra vem do tupi "canhambora", que quer dizer "aquele que costuma fugir". O primeiro quilombo surgiu na Bahia em 1575.

2. O Quilombo dos Palmares foi fundado por escravos negros fugidos de engenhos da região da Zona da Mata nordestina, no início do século XVII. Ficava na Serra da Barriga, região do atual estado do Alagoas, área de difícil acesso.

3. Foi, em extensão, o maior quilombo do País, espalhando-se por vários pontos. Resistiu durante quase 100 anos, de 1600 a 1695. Zumbi foi um dos líderes mais famosos da comunidade.




4. A população total dos Palmares chegou a atingir a marca de 20 mil habitantes, o que representava 15% da população do Brasil. Além de negros escravos, lá viviam também índios e brancos pobres, dispostos nas várias aldeias, chamadas de "mocambos" ("esconderijo", no dialeto banto falado pelos escravos).

5. A comunidade dos Palmares sobrevivia criando gado e plantando mandioca e cana-de-açúcar. O alimento era distribuído igualmente entre todos os moradores, e as sobras, trocadas por sal, pólvora e armas de fogo.

6. Zumbi, grande líder do Quilombo dos Palmares, nasceu por volta de 1655, em Palmares. Ainda pequeno, foi capturado por soldados e dado ao Padre Antônio de Melo, que o batizou com o nome cristão de Francisco. O padre também foi o responsável por ensinar latim, astronomia, matemática e história da Bíblia para o menino.

7. Aos 15 anos de idade, Zumbi fugiu de volta ao Quilombo dos Palmares. Na época, a comunidade era chefiada por seu tio Ganga Zumba.

8. Em 1678, Ganga Zumba fez um acordo com o governo da Província de Pernambuco. As autoridades prometeram libertar todos os negros nascidos no quilombo e dar terras no vale do Curcaú (Pernambuco) caso o quilombo fosse desfeito. Zumbi não concordou com os termos, porque ele não contemplava os escravos fugidos, e resolveu permanecer no reduto. Ganga Zumba, que fugiu para Curcaú, acabou sendo assassinado. Zumbi então assumiu o comando de Palmares, aos 25 anos.
9. Em 1692, um ataque comandado pelo bandeirante paulista Domingo Jorge Velho iniciou o fim da resistência dos Palmares. Sitiado, o quilombo capitulou em fevereiro de 1694, com a invasão da Aldeia do Macaco. Zumbi conseguiu furar o cerco e fugir, passando o ano seguinte na mata, atacando aldeias portuguesas. Em novembro de 1695, um antigo companheiro de Zumbi, chamado Antonio Soares, delatou aos portugueses a localização do esconderijo do líder negro. No dia 20 de novembro de 1695, ele foi localizado, preso, morto e esquartejado pelos tropas portuguesas. Sua cabeça foi levada para Olinda e exposta publicamente.

10. Comemorado no dia 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra foi estabelecido pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. De acordo com alguns movimentos sociais, o Dia Nacional da Consciência Negra é uma data mais relevante do que a Abolição da Escravatura (13 de maio), do ponto de vista histórico e social.






fonte:http://guiadoscuriosos.com.br/categorias/2749/1/10-curiosidades-sobre-o-quilombo-dos-palmares.html

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

100,000 Acessos

Deus sabe o quanto eu esperei esse dia. É com orgulho que vejo essa pagina chegar a esse patamar.
Mostra que o objetivo fora alcançado e que minha terrinha virou alvo de curiosidade e estudo.
Continuarei a estudar e divulgar essa terra até que eu consiga dar a ela o titulo de "PORTAL DE ENTRADA DAS MINAS GERAIS".
Sei que não será facil, pode ser uma utopia, mas sonhar não custa nada. A luta continua.
Obrigado a todo voces. Obrigado Virgem Santíssima, Santo Antonio e acima de tudo...OBRIGADO JESUS!

Arrumar o homem

 (Dom Lucas M. Neves)





Não boto a mão no fogo pela autenticidade da história que estou para contar. Não posso, porém, duvidar da veracidade da pessoa de quem escutei e, por isso, tenho-a como verdadeira. Salva-me, de qualquer modo, o provérbio italiano: “Se non é Vera… é molto graciosa!”
Estava, pois aquele pai carioca, engenheiro de profissão, posto em sossego, admitindo que, para um engenheiro, é sossego andar mergulhado em cálculos de estrutura. Ao lado o filho, de 7 ou 8 anos, não cessava de atormentá-lo com perguntas de todo tipo, tentando conquistar um companheiro de lazer.
A ideia mais luminosa que ocorre ao pai, depois de dez ou quinze convites a ficar quieto e a deixá-lo trabalhar, foi a de pôr nas mãos do moleque um belo quebra-cabeça trazido da última viagem à Europa. “Vá brincando enquanto eu termino está conta” sentencia entre dente, prelibando pelo menos uma hora, hora e meia de trégua. O peralta não levará menos do que isso para armar o mapa do mundo com os cinco continentes, arquipélagos, mares e oceanos, comemora o pai-engenheiro.
Quem foi que disse hora e meia? Dez minutos depois, dez minutos cravados, e o menino já o puxava, triunfante. “Pai, vem ver!”. No chão, completinho, sem defeito, o mapa do mundo. Como fez? Como não fez? Em menos de uma hora era impossível. O próprio herói deu a chave da proeza: “Pai, você não percebeu que, atrás do mundo, o quebra-cabeça tinha um homem? Era mais fácil. E quando eu arrumei o homem, o mundo ficou arrumado!”.
“Mas esse garoto é um sábio”, sobressaltei, ouvindo a palavra final. Nunca ouvi verdade tão cristalina: “Basta arrumar o homem (tão desarrumado, quase sempre) e o mundo fica arrumado!”.
Arrumar o homem é a tarefa das tarefas, se é que se quer arrumar o mundo.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A lenda da Mãe do Ouro

Mãe-de-Ouro



A Mãe-do-Ouro é uma personagem do folclore brasileiro, muito popular no interior das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil.
Possui a aparência de uma linda mulher,com cabelos comprido dourados que reflete a luz do Sol. Aparece sempre trajada de um longo vestido de seda branco. Em algumas regiões, a Mãe-de-ouro é também representada por uma bola de fogo que tem a capacidade de se transformar nesta linda mulher.De acordo com a lenda, a Mãe-de-Ouro tem a capacidade de voar pelos ares, indicando locais onde existem jazidas e ouro. Dizem que em noites escuras e sem estrelas, aquela bola incandescente faz a curva no céu caindo sobre o morro, indicando que ali há tesouro enterrado. 
Diziam ser ela a guardiã dos tesouros da terra, das montanhas e dos rios. Ela está sempre perto do ouro e é vista à noite, porque brilha com a mesma beleza dourada de seu filho. Se alguém aproximar muito, ela desaparece, reaparecendo, em seguida, noutro lugar. Dizem que muitas lavras foram descobertas por causa de sua presença. Costuma aparecer à noite, depois de 19 horas, como uma luz dourada com a cauda luminosa. Aqueles poucos mortais que puderam vê-la mais de perto dizem ser uma mulher muito bonita, coberta de ouro, tendo os cabelos cheios de bichos. É crença geral que, quem conseguir limpar seus cabelos, ficará muito rico.
Há também versões de que a Mãe-de-ouro atue como uma defensora das mulheres que são maltratadas pelos maridos. De acordo com a lenda, a Mãe-de-ouro atrairia homens casados para uma caverna, libertando assim as esposas destes maridos e colocando no caminho delas homens bons.

sábado, 2 de julho de 2016

curiosidades sobre a escravidão

Dia 13 de maio se comemora a abolição da escravidão no Brasil. O fato ocorreu em 1888, através da assinatura da famosa Lei Áurea, pelas mãos da princesa Isabel. De lá para cá, este fato gera divisões entre aqueles que comemoram a libertação dos escravos e aqueles que acham que a lei áurea não incorporou o negro na sociedade brasileira, mantendo as desigualdades. Sobre este fato, discutiremos em outra postagem. Nesta, vamos apontar 25 curiosidades sobre a escravidão no Brasil.
Atenção: nós compreendemos que o assunto postado abaixo é delicado e suscita os mais diversos sentimentos em diferentes segmentos da população brasileira. O objetivo não é idealizar o assunto ou torná-lo caricato, apenas abordar os fatos. Optamos, também, por utilizar o termo negro ao termo afro-brasileiro, mais utilizado atualmente.
Esta lista foi extraída e adaptada de diferentes fontes, como mania de história e guia dos curiosos.



– Os primeiros navios negreiros foram trazidos pelo português Martim Afonso de Sousa, em 1532. A contabilidade oficial estima que, entre essa data e 1850, algo como 5 milhões de escravos negros entraram no Brasil. Porém, alguns historiadores calculam que pode ter sido o dobro.
– Os navios negreiros que traziam os escravos da África até o Brasil eram chamados de tumbeiros, devido à morte de milhares de africanos durante a travessia. Estas mortes ocorriam devido aos maus-tratos sofridos pelos escravos, pelas más condições de higiene e por doenças causas pela falta de vitaminas, como no caso do escorbuto.
– É possível traçar a origem dos escravos em três grandes grupos: os da região do atual Sudão, em que os iorubás, também chamados nagôs, predominam; os que vieram das tribos do norte da Nigéria, a maioria muçulmanos, chamados de malês ou alufás; e o grupo dos bantos, capturados nas colônias portuguesas de Angola e Moçambique.
– Quando chegava ao Brasil, o africano era chamado de “peça” e vendido em leilões públicos, como uma boa mercadoria: lustravam seus dentes, raspavam os seus cabelos, aplicavam óleos para esconder doenças do corpo e fazer a pele brilhar, assim como eram engordados para garantir um bom preço.
– Um escravo valia mais quando era homem e adulto. Um escravo era considerado adulto quando tinha entre 12 e 30 anos. Eles trabalhavam em média das 6 horas da manhã às 10 da noite, quase sem descanso, e amadureciam muito rápido. Com 35 anos, já tinham cabelos brancos e bocas desdentadas.

– Os cativos recebiam, uma vez por dia, apenas um caldo ralo de feijão. Para enriquecer um pouco a mistura, eles aproveitavam as partes do porco que os senhores desprezavam: língua, rabo, pés e orelhas. Foi assim que, de acordo com a tradição, surgiu a feijoada.
– A Festa de Nossa Senhora do Rosário, a padroeira dos escravos do Brasil colonial, foi realizada pela primeira vez em Olinda (PE), no ano de 1645. A santa já era cultuada na África, levada pelos portugueses como forma de cristianizar os negros. Eles eram batizados quando saíam da África ou quando chegavam ao Brasil.
– Na cidade de Serro (MG), acontece a maior de todas as festas em homenagem a santa, em julho, desde 1720. De acordo com a lenda, um dia Nossa Senhora do Rosário saiu do mar. Ao ser chamada por índios, não se mexeu. O mesmo aconteceu com marinheiros brancos. A santa só atendeu aos escravos, que tocaram bem forte os seus tambores.
– Crianças brancas e negras andavam nuas e brincavam até os 5 ou 6 anos anos de idade. Tinham os mesmos jogos, baseados em personagens fantásticos do folclore africano. Mas aos 7 anos, a criança negra enfrentava sua condição e precisava começar a trabalhar.
– Cada senhor de engenho tinha autorização para importar 120 escravos por ano da África. E havia uma lei que estipulava em 50 o número máximo de chibatadas que um escravo podia levar por dia.

– A cozinha era muito valorizada na casa-grande. Conquistaram o gosto dos europeus e brasileiros os pratos de origem africana, como vatapá e caruru, comuns na mesa patriarcal nordestina. A cozinha ficava num anexo da casa, separada dos cômodos principais por depósitos ou áreas internas.
– Normalmente, divisões internas da senzala separavam homens e mulheres. Mas, algumas vezes, era permitido aos poucos casais aceitos pelo senhor morarem em barracos separados, de pau-a-pique, cobertos com folhas de bananeira.
– Aos domingos, os escravos tinham direito de cultivar mandioca e hortaliças para consumo próprio. Podiam, inclusive, vender o excedente na cidade. A medida combatia a fome do campo, pois a monocultura de exportação não dava espaço a produtos de subsistência.
– Quando a noite caia, o som dos batuques e dos passos de dança dominava a senzala. As festas e outras manifestações culturais eram admitidas, pois a maioria dos senhores acreditava que isso diminuia as chances de revolta.
– Com a expansão das cidades, multiplicam-se escravos urbanos em ofícios especializados, como pedreiros, vendedores de galinhas, barbeiros e rendeiras. Os carregadores zanzam de um lado a outro, levando baús, barris, móveis e, claro, brancos.
– Escravos de Ganho eram escravos que tinha permissão de vender ou prestar serviços na rua. Em troca, ele deveria dar uma porcentagem dos ganhos a seu dono.
– Em algumas regiões, os escravos africanos eram divididos em três categorias: o “boçal”, que recusava falar o português, resistindo à cultura européia; o “ladino”, que falava o português; e o “crioulo”, o escravo que nascia no Brasil. Geralmente, ladinos e crioulos recebiam melhor tratamento, trabalhos mais brandos e perspectiva de ascensão social.
– Os negros nunca tiveram uma atitude passiva diante da escravidão. Muitos quebravam ferramentas de trabalho e colocavam fogo nas senzalas. Outros cometiam suicídio, muitas vezes comendo terra. Outros, ainda, entregavam-se ao banzo, grande tristeza que podia levar à morte por inanição. A forma comum de rebeldia, no entanto, era a fuga.
– Segundo alguns historiadores, a capoeira nasceu de um ritual angolano chamado n’golo (dança da zebra), uma competição que os rapazes das aldeias faziam para ver quem ficaria com a moça que atingisse a idade para casar. Com o tempo, a prática se transformou em exibição de habilidade e destreza.
– A palavra capoeira não é de origem africana. Ela vem do tupi (kapu’era). Trazida para o Brasil por intermédio dos navios negreiros, a capoeira foi desenvolvida nos quilombos pernambucanos do século XVI. As características de luta e dança adquiridas no país podem classificá-la como uma manifestação cultural genuinamente brasileira.


– O berimbau é um instrumento de percussão trazido da África (mbirimbau). Ele só entrou na história da capoeira no século XX. Antes, o instrumento era usado pelos vendedores ambulantes para atrair os clientes. O arco vem do caule de um arbusto chamado biriba, comum no Nordeste, que é fácil de envergar.
– Até a abolição da escravatura, a lei punia os praticantes de capoeira com penas de até 300 açoites e o calabouço. De 1889 a 1937, a capoeira era crime previsto pelo Código Penal. Uma simples demonstração dava seis meses de cadeia. Em 1937, o presidente Getúlio Vargas foi ver uma exibição, gostou e acabou com a proibição.
– Após a independência de Portugal, em 1822, uma das primeiras medidas do governo foi proibir que alunos negros freqüentassem as mesmas escolas que os brancos. Um dos motivos apontados é que temiam eles pudessem transmitir doenças contagiosas.
– O movimento abolicionista tinha mais de 60 anos quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888. Mobilizava muitos intelectuais da época, como escritores, políticos, juristas, e também a população de uma forma geral.
– Em 1823, dom Pedro I chegou a redigir um documento defendendo o fim da escravidão no Brasil, mas a libertação só ocorreu 65 anos depois.


fonte: http://www.historiadigital.org/curiosidades/25-curiosidades-sobre-a-escravidao/  

sexta-feira, 24 de junho de 2016

10 fatos que você não sabia sobre a escravidão nas igrejas evangélicas no Brasil




1 – Anglicanos buscaram cristianizar os filhos dos escravizados

Na cidade do Rio de Janeiro encontrava-se um grupo de anglicanos da Christ Church. Os membros dessa igreja, em sua maioria bastante abastados financeiramente, eram donos de escravos. Estes anglicanos buscaram cristianizar os filhos dos escravos de seus membros, forçosamente batizando-os e dando-lhes nomes cristãos. Consta no livro de atas da Christ Church os seguintes relatos:

“Thereza, filha de Louisa – escrava negra, nativa de Manjoula, África – propriedade de James Thonton, um comerciante inglês”. Lê-se também: “Em 11 de maio de 1820 foram batizados 11 escravos do fazendeiro Robert Parker”. Fonte: Livro nº 1 de Registro de Batismo da Christ Church, p. 19/20. Doc. Christ Church. Rio de Janeiro.

Em outra igreja Anglicana, a que se reunia em Morro Velho, também se constata escravos pertencentes a membros. Há registros de batismos de escravos domésticos de John Alexander em 1830 e do Coronel Skerit em 1833. As cidades de Morro Velho e Passagem no estado de Minas Gerais eram locais de exploração a minas por uma empresa inglesa. Em torno dessas minas crescia uma colônia britânica numerosa, sempre visitada pelos bispos da igreja anglicana.

2 – Os primeiros evangélicos batistas no Brasil possuíam escravos

Os primeiros colonos batistas no Brasil possuíam escravos. Muitos vieram para o Brasil por causa das facilidades e similaridades escravagistas aqui encontradas. Crabtree fora um missionário batista enviado pela Junta Missionária de Richmond (Convenção do Sul). Em 1859 ele escreve à Junta avaliando aquilo que seria, para ele, muito tranquilizador para o envio de missionários americanos para o Brasil:

“o Brasil era como os Estados Unidos, tem escravos e os missionários enviados pela Convenção Batista do Sul não podiam sentir-se constrangidos a combater a escravatura e assim envolver-se na política do país”. Fonte CRABTREE, A.R. História dos Batistas do Brasil até 1906. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista.1962, p.5

Muitos batistas em Santa Bárbara D’Oeste, em São Paulo, possuíam escravos para os trabalhos domésticos e, também, na lavoura. Rute Mathews, contando a história de Ana Bagby (missionária batista pioneira no Brasil), relata a história da Senhora Ellis, batista, senhora de escravos, e que hospedou os fundadores da Primeira Igreja Batista do Brasil, os missionários W. Bagby, em sua casa nos primeiros meses do casal no Brasil:

“Depois de dormir uma noite na Capital Paulista, os missionários tomaram o trem para Sta. Bárbara, onde chegaram sob forte aguaceiro. Na estação os aguardavam os enviados da Sra. Ellis, com dois cavalos e um escravo, para carregar a bagagem. A estrada até o sítio estava bem lamacenta, mas ao chegar, foram carinhosamente recebidos”. Fonte CRABTREE, A.R. História dos Batistas do Brasil até 1906. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista.1962, p.5

3 – Evangélicos Ingleses eram proprietários de mais de 2 mil escravizados

O Rev. Boys era um capelão inglês da ilha britânica de Santa Helena, no meio do Atlântico Sul. Em 1819, ele foi obrigado a permanecer por um bom tempo no Rio de Janeiro, por causa de uma enfermidade de sua esposa. Sua carta informa que a cidade do Rio de Janeiro tinha naquela época 300 mil habitantes, 80 mil dos quais eram escravos. Ele continua:

“Aqui temos residindo um embaixador inglês, o sr. Thornton, e aproximadamente 1.500 negociantes ingleses mais os franceses, muitos dos quais sei que favorecem uma sociedade bíblica auxiliar. A maioria deles possui escravos, os quais, naturalmente, eles têm a obrigação de instruir, e não poderiam ser incomodados [por cumprirem essa obrigação]. Daí haver bastante oportunidade para o estabelecimento de uma escola para adultos em casa para o benefício deles próprios… E quanta utilidade isso teria aqui! Pois não devem existir menos de 2 mil escravos, propriedade de negociantes ingleses (eu os estimaria em 3 mil ou 4 mil), inteiramente às ordens de nossos compatriotas”. Fonte: REILY, História documental, p. 49.

4 – Os Metodistas tinha duas classes de escola dominical de escravizados

Spaulding foi o primeiro missionário metodista no Brasil; partindo de Nova York, chegou com sua família ao Rio de Janeiro em 29 de abril de 1836. Antes de completar um mês de estada no país, organizou a primeira escola dominical. Sua escola dominical tinha uma assistência de mais de quarenta crianças e jovens. Quanto aos escravos, ele diz:

“Temos duas classes de pretos, uma fala inglês, a outra português. Atualmente, parecem muito interessados e ansiosos por aprender…”. Fonte: REILY, História documental, p. 92

5 – Os crentes evangélicos compravam escravos nos leilões

No dia 10 de outubro de 1859, dois meses após desembarcar no Rio de Janeiro, Simonton escreveu em seu diário:

“Fui com o senhor H. a um leilão em que ele comprou dois negros. Outra vez estou no meio do horror da escravidão”. Fonte: SIMONTON, Ashbel G. O Diário de Simonton, 1852-1866. 2. ed. ampliada. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 11.  

Alguns dias antes (28/09), ele tivera uma discussão na qual contrariou certo Sr. “S.”, que o desapontara muito, pois esta pessoa era “absurdamente a favor” da escravidão. Simonton era nortista, logo, favorável à abolição, pois considerava a escravidão pecado e opressão. Apesar de sua opinião contrária à escravidão, Simonton se mostrou cauteloso quanto à exposição pública de suas ideias antiescravistas no Brasil. Três anotações em seu Diário, datada de 3 de janeiro de 1860 e 31 de dezembro de 1866, dão conta de que Simonton se utilizou do trabalho de escravos no Brasil, embora nunca os tenha possuído. Em 1860, quatro negros fizeram o transporte de sua mudança para a casa do Sr. Patterson. Em 1866, um negro chamado Quitano, alugado por Blackford, o ajudou na arrumação de sua nova casa. Depois, quando novamente se mudou de endereço, para a Rua dos Inválidos, uma escrava chamada Cecília trabalhou para ele por um tempo. Um dado interessante é que uma das últimas pessoas a orarem por ele junto ao seu leito de morte foi um negro, membro da igreja de São Paulo. Fonte FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil. 2 vols. 2. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, vol. 1, p. 84.  

6 – Missionários levavam escravizados em suas viagens de pregação do evangelho

Júlio Andrade Ferreira, ao narrar a chegada de John Boyle a Cajuru, interior de São Paulo, diz que ele se fazia acompanhar de um negro, que, cansado, queixou-se da longa viajem. Todavia, não faz qualquer alusão ao fato de esse negro ser um escravo, seu ou da missão, limitando-se a chamá-lo de “acompanhante”. Esse fato ocorreu entre 1882 e 1884, portanto, antes da abolição. Fonte: FERREIRA, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1, p. 251. A citação original vem de outro livro de sua autoria, Galeria evangélica, p. 95-97.

7 – Evangélicos luteranos alemães possuíam escravizados

Émile Léonard comenta em seu livro que nos estados do sul do Brasil, os alemães, em sua grande maioria protestantes, possuíam muito poucos escravos. Em São Leopoldo seu número era bastante reduzido e Hermann Blumenau não aceitava escravos na sua colônia. Porém, a razão para isso era mais econômica do que motivada por princípios cristãos, uma vez que os colonos eram muito pobres para possuir escravos. Por outro lado, Léonard afirma que nas regiões onde “os alemães foram submetidos a uma economia escravagista, eles se conformavam”. Um exemplo disso foi a colônia Leopoldina, no sul da Bahia. Ali se contavam em 1853 apenas 25 trabalhadores livres para 1.245 escravos, que garantiam sua sobrevivência sob um clima terrível. Fonte LÉONARD, O protestantismo brasileiro, p. 101, nota 81.

8 – Na Revolta dos Malês dos 160 acusados, 45 eram escravizados de evangélicos

Os súditos britânicos, membros da Saint Church, não só desobedeciam às ordens de S.M. Britânica ao participarem do rentável comércio negreiro que se fez na Bahia do século XIX, mas também eram proprietários de escravos que utilizavam como mão-de-obra doméstica ou em alguns empreendimentos de caráter manufatureiro que mantinham em Salvador. Em 1835, durante a revolta dos escravos malês, ocorrida em Salvador, dos 160 acusados, 45 eram escravos de ingleses residentes no bairro da Vitória. No sumário do juiz que condenou os líderes da insurreição escrava, fica evidente que as próprias lideranças do movimento eram propriedade de ingleses e se reuniam nos fundos de suas casas:

“capturei como cabeças e Chefes de Clubes que se a ajuntavão na casa do Inglez Abraham e de que anteriormente tinha dado parte ao excelentíssimo Presidente da Província os seguintes nagôs-Diogo-Daniel-Jaimes e João escravos de Abraham, cabeças do clube, sahirão e recolherão se pela manhã-Carlos e Thomaz-Cabeças do Clube, sahirão e recolherão se pela manhã ainda com as calças com sangue examinei não tinha ferida alguma no corpo, escravos de Frederico Robelliard, Cornelio escravo Preto rei Inglez apanhou recolhendo se para caza confessou ter hido com os outros era também do Clube, aceitara o evangelho”. Fonte: In. Anais do Arquivo Público do Estado da Bahia.Salvador.1992. Vol.50, p.59. 

9 – Os evangélicos ingleses possuíam escravizados como bens ou investimentos

Compulsando testamentos e inventários de anglicanos que morreram na Bahia na segunda metade do século XIX, também constatou-se a presença de proprietários de escravos, tais como os senhores Eduardo Jones que tinha 6 escravos domésticos; o Sr. George Mumford 17 que possuía 11 escravos que trabalhavam na sua roça no Acupe e Sr. George Blandy, que possuía 4 escravos. Os seus herdeiros, cidadãos britânicos, se recusaram a ficar com os escravos, pois “pela legislação inglesa não pode o suplicante (James P. Mee) possuir escravos, e pedia que reforme a sentença aquinhoando aqueles escravos ao herdeiro João Miranda Pinheiro da Cunha cazado com D. Joaquina Blandy Pinheiro da Cunha.

É interessante destacar que o herdeiro inglês não teve nenhum pejo de tratar os escravos como mais um bem na herança a ser dividida. Ao invés de alforriar os escravos dando-lhes liberdade, solicitou uma barganha financeira com um herdeiro brasileiro, que poderia ser proprietário de escravos. O seu pedido foi atendido pelo Juiz.  Fonte: Testamento n 07/3056/04. Arq. Público do Estado da Bahia;Testamento n 07/3048/02. Arq. Público do Estado da Bahia; Partilha Amigável n 01/114/171/17. Arq. Público do Estado da Bahia.

10 – Os evangélicos lucrava com a escravização de seus próprios filhos

Com um misto de surpresa e indignação, o Rev. Walsh a descrever episódios que demonstravam a desumanidade da escravidão vivido pelos escravos no Brasil, nada deixou mais chocado o clérigo do que constatar que seus concidadãos ingleses participavam e usufruíam do “nefando comércio,” lucrando com a escravização de mulheres e de seus próprios filhos, como presenciou na estrada da Tijuca, no Rio de Janeiro. 

Incrédulo diante do que viu e ouviu, o capelão não podia admitir que aquele homem inglês fosse o mesmo que partiu de sua terra natal, mas tratava-se de uma outra pessoa que, estando:

“em um país estrangeiro e entra em contato com a escravidão a sua natureza parece modificar-se, e ele passa a vender não só a mãe de seus filhos como os filhos propriamente ditos, e com tanta indiferença como se tratasse de uma porca com a sua ninhada.” Fonte: WALSH, p. 164.

Imagem: do filme 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO que mostra o crente fervoroso, senhor de escravos,  afirmando que todo o sofrimento que os escravizados estavam passando era justificado pela Bíblia. O filme mostra ainda  o assédios  e estupros das escravizadas  pelo escravista e o ciúme doentio de sua esposa. A imagem mostra também a mulher negra escravizada da ilustração de kendy Joseph.

Por Hernani Francisco da Silva – Do Afrokut

Referências e Informações:
Visões Protestantes Sobre a Escravidão – Elizete da Silva – Revista de Estudos da Religião Nº 1 / 2003 / pp. 1-26
A Igreja Presbiteriana do Brasil e a escravidão: BREVE ANÁLISE DOCUMENTAL – Hélio de Oliveira Silva – FIDES REFORMATA XV, Nº 2 (2010): 43-66
LÉONARD, Émile G. – Protestantismo Brasileiro – Editora Juerp
O Protestantismo e escravidão no Brasil – Hernani Francisco da Silva